Partição / Taqsim
Desci ao mar as minhas redes Encontrei as ondas, algumas rindo, outras chorando A onda me pergunto: o que você têm? Eu lhe disse que era a separação do meu amor mais caro.
Um filme palestino, sobre a Palestina, chamado "Partição”…
Antes de assistir já pipocavam em minha mente as imagens da sessão da ONU, de 1947, que particionou a Palestina histórica, e aquelas das centenas de milhares de palestinos fazendo o caminho entre seu lar ancestral e o exílio, como consequência
…
Mas não. É um filme, por assim dizer, mais poético, mais sugestivo e menos explicador.
Faz uma junção, uma colagem, uma sobreposição, de imagens da Palestina, tiradas de arquivos ingleses, e de gravações sonoras, conversas, sons das ruas e das mesquitas, poemas declamados e canções populares. As imagens são, algumas, do começo do Século XX, e outras do anos 1940; as gravações são mais recentes, feitas sobretudo, ao que parece, em campos de refugiados no Líbano.
Eu assisti ao filme como alguém que teria a tarefa, encomendada, de debatê-lo diante de um público (no âmbito do Festival Ecofalante).
Não sei o que teria pensado sobre o filme se o tivesse tomado como obra de arte a ser gozada, aproveitada, sentida; não sei o que teria dito ou se teria silenciado.
Eu precisava ter algo a dizer. E esse algo precisava ser útil…
A primeira coisa que as cenas me fizeram pensar foi que já há mais de cem anos, bem antes da Partição, a Palestina era cheia de palestinos que a câmera não podia deixar de capturar. O mito da terra sem povo era apenas um mito.
O filme abre com um poema pertencente a uma categoria que me ocorre aproximar do repente brasileiro, um estilo praticado nas aldeias, em árabe coloquial, muito comum no Levante Árabe (Palestina, Síria, Líbano…). Trata-se do Zajal, no caso do poema específico, um átaba (um lamento, um reclamo). Diz o poema:
Desci ao mar as minhas redes
Encontrei as ondas, algumas rindo, outras chorando
A onda me pergunto: o que você têm?Eu lhe disse que era a separação do meu amor mais caro.
Reconheci de imediato a forma e as rimas (na verdade, mais do que rimas). Foram muitas as vezes em que, sobretudo quando criança, testemunhei velhos e jovens se aventurarem na busca das melhores palavras e se desafiarem uns aos outros.
Ao mesmo tempo em que vivi essa familiaridade, percebi como muito da essência do poema e da tradição em que ele se insere, do sentimento que evoca, escaparia ao espectador que não conhece o árabe e o contexto específico do Levante.
Sem pretender suprir essa lacuna, tarefa talvez impossível, quero abrir uma fresta de explicação: em árabe, “minhas redes” aparece como shibaki, “outras chorando” como shi baki e “o que você tem?” como shu baki?. Só o último verso (chamado de mayjana) escapa ao final com palavra homófona ou quase homófona.
Além da especificidade do ‘ataba, muitas coisas escapariam inevitavelmente, por conta da estrutura do filme e de sua forma, a quem não estivesse familiarizado com a questão palestina, com a porção libanesa da sua história, com a língua e com tradições árabes… Eu tinha uma vantagem na apreciação do material.
Mas havia algo que me escapava e que estava relacionado ao título do filme, Partition em inglês, Taqsim em árabe. Antes de confirmar o nome original nas duas línguas, hesitei, em português, entre “partição” e “partilha”. Mergulhando no sentido das palavras (como fazia o chacal mergulhador a que já fiz referência em outro texto), lembrei que “partilha”, apesar de tão comum no discurso brasileiro sobre a Palestina, não pode caber e faz uma injustiça adicional aos palestinos, já que remete a uma distribuição justa e equitativa!
Se devemos escolher entre as duas palavras aquela que descreverá a divisão do território da Palestina histórica, fiquemos com “partição".
Se, no entanto, queremos nos referir à realidade concreta do que aconteceu ali, temos que reconhecer que a partição foi apenas um passo, quase burocrático, no caminho que levaria à expulsão dos palestinos de sua terra. “Partição” não descreve a contento o drama palestino. Pelo contrário, ajuda a encobrir a real intenção de limpeza étnica…
Mas se o filme não aborda diretamente o processo ou o ato de partição, e se nem as imagens nem os sons referem propriamente aquele momento histórico, por que tem “partição” por título?
Não podendo penetrar a mente dos autores do filme e decifrar suas intenções, e temendo que uma pesquisa mais aprofundada sobre essas mesmas intenções viesse a me revelar algo mais banal do que gostaria de conceber minha imaginação, resolvi empreender uma exploração mais livre: ir aonde me levasse a língua em su jogo de significados, a língua árabe, digo.
Taqsim quer de fato dizer partição. Lembremos que em outros textos já falamos sobre a língua árabe, sua natureza consonantal e a estrutura básica das palavras, as raízes triconsonantais. A raiz que dá origem a taqsim é “q s m” que expressa imediatamente o sentido do verbo dividir, particionar, partir, distribuir.
Da mesma raiz, decorre a palavra qisma que, compreensivelmente, significa a porção decorrente da divisão, a parte que cabe a alguém. Mas, daqui já se pode ensaiar um voo um pouco mais alto e buscar uma conexão com a Questão Palestina: a porção que cabe a alguém, a qisma, recobre um sentido mais amplo e abstrato, mais absoluto; é também fado, destino, sina. Tão forte é essa derivação que o seu equivalente kismet entrou para diversas línguas, inclusive o inglês e o francês, com esse único sentido de destino.
Essa elevação em relação à ideia mais banal, de divisão, de partição, se encontra também no fato de que qasam, outro termo decorrente da mesma raíz, significa juramento, de que qãsama significa compartilhar com e de que maqsum significa dividido, destinado, mas também determinado (de modo irreversível).
Talvez, então, pudéssemos pensar o título, Taqsim, menos como partição e mais como uma referência ao destino dos palestinos, à sina a que foram condenados… ou à Palestina como a parte de território que corresponde aos palestinos, ainda que tarde o destino em fazê-los possuidores dela… ou à promessa que fazem os palestinos de permanecer e de retornar…
Lembrei então, de repente, que já vira a palavra taqsim ou taqasim referida à música, mais especificamente a solos de oud (alaúde) performados por um certo compositor egípcio (Riad Al Sonbati, sobre quem voltarei a falar um dia)
Mergulhando mais uma vez, descubro que taqasim na música designa justamente solos instrumentais, por vezes improvisados, contendo partes, passagens, variações que, ainda que diversas, permitem a identificação do tema ou do estilo (maqam)…
Será então que o filme se pretendia uma espécie de taqsim, uma tentativa de colagem das partes que anunciariam o todo, não na música, mas na junção de imagens e sons?







